sábado, 23 de abril de 2011

Liderança no futebol profissional

... Liderança não é dominação, mas a arte de convencer as pessoas a trabalhar para um objetivo comum.

(GOLEMAN, 1995, p. 164)

Ouve-se muito a palavra liderança no mundo atual, nos negócios, no cotidiano das pessoas, no esporte e, mas especificamente no futebol. Mas o que realmente vem a ser essa palavra? Qual seu verdadeiro significado? Pode-se colocar liderança como a situação que uma equipe se encontra num determinado campeonato, por exemplo, a liderança do campeonato brasileiro é exercida pela equipe X, em outras modalidades esportivas, como no automobilismo, diz-se que o piloto Y está na liderança, mas não é esse conceito ou significado para liderança que será enfocado nesse artigo. Coloca-se liderança como a postura, a característica e a função de um treinador frente uma determinada equipe de futebol profissional.

No futebol globalizado e competitivo de hoje em dia, ocorre um nivelamento dos aspectos técnicos, táticos e físicos e pouco se cria ou se inventa nessa área sem o conhecimento ou imediata utilização por todas as equipes. Os fatores psicológicos em muitos casos irão decidir uma partida ou campeonato. O empenho e dedicação dos atletas frente a determinadas situações ou adversários são influenciados diretamente pela atuação do treinador. O papel do líder e como ele exerce a liderança será fundamental no desempenho dos atletas e da equipe, BRANDÃO; AGRESTA e REBUSTINI (2002); CORRÊA et. al. (2002); SIMÕES; RODRIGUES e CARVALHO (1998) corroboram essa afirmação.

Liderança significa a capacidade de influenciar pessoas para trabalharem juntas, no alcance de metas e objetivos, de forma harmônica.

(BRANDÃO; AGRESTA; REBUSTINI, 2002)

Para FERREIRA (1995):

Líder – Indivíduo que chefia, comanda e/ou orienta, em qualquer tipo de ação, empresa ou linha de idéias. Guia, chefe ou condutor que representa um grupo, uma corrente de opinião etc. (p. 394).

Liderança – Função de líder. Capacidade de liderar, espírito de chefia. Forma de dominação baseada no prestígio pessoal e aceita pelos dirigidos (p. 394).

Liderar – Dirigir na condição de líder. Ocupar a posição de líder em qualquer competição (p. 394).

O líder deve estar atento a todos os detalhes que envolvem uma equipe. De acordo com OSTERMANN (2002), Luiz Felipe Scolari está atento a tudo como líder, vê todos os detalhes, mas se cerca de profissionais de todas as áreas.

Para Franco, citado por OLIVEIRA; VOSER e HERNANDEZ (2004) o “treinador é o líder, e para tanto deverá ser o condutor e articulador das relações entre os atletas de sua equipe. Ser líder é saber lidar com as diferenças no grupo e não tornar todos iguais”.

O comportamento de liderança dos técnicos tende a ser impessoal, seguindo as normas e regulamentos com rigidez para alcançar metas. Isso, entretanto, não é garantia de sucesso. A interação entre comandante e comandados passa por uma série de fatores de relacionamento interpessoal (SIMÕES; RODRIGUES; CARVALHO, 1998).

Segundo Matt “Boom” Daniel, citado por CUNHA (2005), um bom líder deve:

1. Aprender a planejar - Um bom líder deve antever o futuro, deve se programar para seis meses, um ano e até cinco anos.

2. Seja íntegro - O grupo deve ser soberano, interesses individuais podem atrapalhar o planejamento.

3. Comunique-se de maneira clara - Nessa etapa é importante a troca de experiência para se atingir um bem comum.

4. Faça sua parte - O líder deve fazer o que planejou anteriormente.

5. Leve o trabalho a sério - Encare o seu trabalho ou função como a mais importante.

6. Antecipe os erros - Planeje os problemas que possam ocorrer no futuro e se prepare para enfrentá-los.

7. Reconheça que precisa de ajuda - Você deve fazer a sua parte, mas deve admitir que muitas vezes precisa de ajuda e aceitá-la.

8. Aperfeiçoe a liderança - A liderança é uma capacidade a ser desenvolvida. Treinamento e disciplina são conceitos valiosos.

Características de um líder segundo BRANDÃO; BRANDÃO, citados por BRANDÃO; AGRESTA e REBUSTINI (2002):

1. Entusiasmo – Além de acreditar nas suas metas, o líder deve ter um desejo imenso de alcançá-las, com isso influenciará positivamente seus atletas.

2. Integridade – Os atletas devem confiar no seu líder, acreditar nas suas idéias, na sua honestidade e que fala sempre a verdade.

3. Senso de propósito e direção – Além do conhecimento técnico da modalidade, o líder tem pleno conhecimento de seus objetivos e de como alcançá-los.

4. Disposição – O líder deve ser bem disposto e ter uma grande capacidade de suportar cargos e pressão.

5. Coragem – Deve saber escolher as decisões corretas para cada situação e não exitar em utilizá-las.

Para DANIELS (2003) a essência de ser líder é “possibilitar aos outros agirem com o máximo de sua capacidade”. Segundo Chelladurai, citado por BRANDÃO; AGRESTA e REBUSTINI (2002) a liderança é fundamental no estado motivacional dos atletas e/ou equipe.

O técnico deve usar situações de momento para motivar os atletas JACKSON e DELEHANTY (1997). Vanderlei Luxemburgo também aproveita todos os acontecimentos durante a semana para motivar seus atletas (LUXEMBURGO; OSTROVSKY, 2004; FLEURY, 1998). Durante a Copa do Mundo de 2002, Felipão utilizou muitas conversas individuais para motivar os atletas, além de histórias, fábulas, declarações de adversários, manchetes de jornais e vídeos motivacionais (OSTERMANN, 2002).

“Motivação – (motivo + ação) é o motivo que alguém tem para fazer alguma coisa” (FLEURY, 1998, p. 77).

Motivação – Ato ou efeito de motivar (FERREIRA, 1995, p. 444).

Motivar – Dar motivo a; causar, produzir. Dar motivo; levar, induzir, incitar, mover. Despertar o interesse ou o entusiasmo; estimular (FERREIRA, 1995, p. 444).

Com níveis de motivação elevados os jogadores tendem a melhorar o desempenho. Os jogadores direcionam toda a sua energia em prol dos objetivos da equipe e se esforçam ao máximo para conseguir o melhor resultado possível (GOULD et. al., citado por CORRÊA et. al., 2002). Estudo realizado por CORRÊA et. al. (2002) constatou que a motivação é essencial no desempenho dos atletas; que os jogadores acham que a comissão técnica deve estar bem preparada inclusive com ensino superior e, que o treinador deve fazer com que os atletas assimilem seus métodos de trabalho, aprimorem suas habilidades técnicas e táticas e mantenham a disciplina.

Segundo DRUBSCKY (2003) a utilização de vídeos motivacionais nas palestras é um grande aliado no enfoque psicológico. A motivação para as partidas é conquistada no dia-a-dia. O trabalho do treinador para motivar seus atletas não deve se concentrar somente no dia do jogo.

O treinador deve conscientizar os atletas que o que faz um time ser vencedor é o coletivo, mas esse coletivo de sucesso é alcançado pelos sonhos e aperfeiçoamento dos indivíduos (FLEURY, 1998).

O treinador que exerce a liderança de forma repressiva está fadado ao fracasso. A liderança é uma característica muito mais ampla do que simplesmente repreender ou gritar com os jogadores. O grande líder conquista pela amizade, respeito, dedicação, compreensão, organização, disciplina e conhecimento técnico os seus comandados. De acordo com FLAUM (2003) “o verdadeiro líder, aquele que permanece, é feito de material certo. Ele sempre constrói a partir de integridade e da credibilidade”. Segundo JACKSON e DELEHANTY (1997) o técnico não deve ser autocrático.

Segundo pesquisa realizada por OLIVEIRA; VOSER e HERNANDEZ (2004), os atletas de futebol de campo preferem um treinador com estilo de liderança educativo. Em segundo lugar preferem um treinador com feedback positivo, seguido de apoio social, democrático e, por último, autocrático.

De acordo com CORRÊA et. al. (2002) os atletas reagem positiva ou negativamente ao estilo de liderança do técnico. A forma como ele utiliza e mobiliza os recursos disponíveis afeta diretamente o desempenho do conjunto.

Liderança é um ato de coragem. Exige iniciativa e componentes que não podem ser falseados - trabalho árduo, integridade e credibilidade.

(FLAUM, 2003).

Devido aos diferentes e inúmeros fatores que determinam e influenciam o ambiente de uma equipe, pode-se dizer que não existem valores específicos e forma de liderar, comandar, orientar e influenciar o comportamento (SIMÕES; RODRIGUES; CARVALHO, 1998).

Treinadores que não se prepararem psicologicamente para o cargo, não souberem a pressão que a função exige e, principalmente, não estiverem qualificados para liderar e motivar de forma positiva seus atletas, estão fadados ao insucesso. O papel do líder fora de campo é imprescindível no futebol moderno. Para Fernandes, citado por TEGA (2005) os conhecimentos práticos e teóricos do técnico são extremamente importantes no futebol. A sua capacidade para utilizar esses conhecimentos é fundamental para liderar seus atletas e equipe a alcançar o desempenho máximo.

Muitos colocam a liderança como um fator inato, mas ela pode ser trabalhada e aprimorada até um ponto satisfatório para a função de treinador de futebol.

Ser líder não é apenas ser um técnico, implica em seguir normas sociais, emocionais e funcionais (SIMÕES; RODRIGUES; CARVALHO, 1998).

Referências:

BRANDÃO, M. R. F.; AGRESTA, M.; REBUSTINI, F. estados emocionais de técnicos brasileiros de alto rendimento. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 10, n. 3, p. 25-28, jul./2002.

CORRÊA, D. K. A.; ALCHIERI, J. C.; DUARTE, L. R. S.; STREY, M. N. Excelência da produtividade: a performance dos jogadores de futebol profissional. Psicologia: Reflexão e Crítica, v. 15, n. 2, p. 447-460, 2002.

CUNHA, L. Lições de um Top Gun. Você s/a., São Paulo, ed. 80, p. 48-50, fev./ 2005.

DANIELS, J. Liderar é fácil: leve os outros a atuarem com o máximo de sua capacidade. Executive Excellence, Rio de Janeiro: Qualitymark, n. 4, 2004.

DRUBSCKY, R. O Universo Tático do Futebol: Escola brasileira. Belo Horizonte: Health, 2003.

FERREIRA, A. B. H. Dicionário Aurélio Básico da Língua Portuguesa. São Paulo: Nova Fronteira e Folha de São Paulo, 1995.

FLAUM, S. Os seis Ps da grande liderança. Executive Excellence, Rio de Janeiro: Qualitymark, n. 2, p. 1-2, 2003.

FLEURY, S. Competência emocional: o caminho da vitória para equipes de futebol. São Paulo: Gente, 1998.

GOLEMAN, D. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Tradução de Marcos Santarrita. 13. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. p. 131-132.

JACKSON, P.; DELEHANTY, H. Cestas sagradas: lições espirituais de um guerreiro das quadras. Tradução de Anna Maria Lobo. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

LUXEMBURGO, V.; OSTROVSKY, I. É campeão! A montagem de um time vencedor. Rio de Janeiro: Gryphus, 2004.

OLIVEIRA, J. L.; VOSER, R. C.; HERNANDEZ, J. A. E. A comparação da preferência do estilo de liderança do treinador ideal entre jogadores de futebol e futsal. In: LECTURAS: EDUCACIÓN FÍSICA Y DEPORTES. Revista Digital. Buenos Aires, año 10, n. 76, set./ 2004. Disponível em: <http://www.efdeportes.com>. Acesso em: 29 dez. 2004.

OSTERMANN, R. C. Felipão: a alma do penta. 2. ed. Porto Alegre: Zero Hora, 2002.

SIMÕES, A. C.; RODRIGUES, A. A.; CARVALHO, D. F. Liderança e as forças que impulsionam a conduta do técnico e atletas de futebol, em convívio grupal. Revista Paulista de Educação Física, v. 12, n, 2, p. 134-144, jul./dez. 1998.

TEGA, E. C. Inteligência emocional no futebol. Monografia (Graduação). In: CIDADE DO FUTEBOL. Disponível em: <http://www.cidadedofutebol.com.br>. Acesso em: 28 abr. 2005.

Agradecimento especial ao amigo e companheiro de profissão Prof. Ms. Fabio Aires da Cunha


Fonte: Treinofutebol.net

Formar para aprender ou formar para vencer?

Numa sociedade dita consumista onde os valores monetários e materiais se sobrepõem aos morais, onde se encaixa a formação/educação dos nossos jovens?

Estaremos preparados para formar/educar os nossos filhos, alunos, desportistas para enfrentar as vicissitudes do dia a dia e do futuro? É importante e urgente que a via da formação/educação não seja apenas direccionada para o sucesso; que não se crie a ilusão de que só os vencedores são bons, e que os derrotados são pessoas fracas e inúteis.

É necessário passar a mensagem para que todos entendam que a vitória e o sucesso é o desempenho que cada um aplica nas suas funções e/ou no trabalho que realiza. A formação dos nossos jovens tem que necessariamente, ir ao encontro de alguns factores, tais como: o sentido de equipa, o espirito de sacrifício, a humildade, o respeito pelo próximo, o saber perder e o saber ganhar.

Existirão certamente outros requisitos, mas se forem cumpridos todos estes, estaremos a direccioná-los para uma vida mais segura, mais estável, de modo a que percebam que o futuro pode ter uma visão mais abrangente, não só a nível do desporto. Podemos não ter muitos desportistas a seguir uma carreira profissional ou muitos alunos a seguir a via universitária, mas, estaremos a formar um bom adepto, cidadão ou pessoa, e isto é o que deve ser levado em conta.

Infelizmente vivemos numa era em que se dá demasiada importância ao resultado. Senão vejamos: é sintomático os jovens serem questionados depois de um jogo e sempre com a mesma pergunta: Ganhaste ou perdeste? Como se isso fosse o mais importante. E porque não perguntar: divertiste-te? É que é bom não esquecer que estamos a falar de jovens, e não de profissionais que vivem em função dos resultados.

Continuando assim, estaremos a prepará-los bem? Penso que não. Continuamos a cair no erro de só pensar na vitória, no sucesso, esquecendo o quão importante é cada um dar o seu melhor, independentemente do resultado, sempre em prol da equipa, clube ou instituição que representa.

Ao longo da vida irão encontrar algumas dificuldades, e o nosso papel é prepará-los para as enfrentar, combater e ultrapassar, caso contrário, graves consequências poderão advir daí.

Será necessário, deste modo, formá-los na óptica da correcção dos seus erros, não atribuindo demasiado valor ao resultado, para que no dia de amanhã ele se sinta preparado para corrigir o que for necessário e com isso tornar-se uma pessoa mais confiante, melhor aluno, melhor atleta e principalmente melhor ser humano.

Deste modo, tanto as qualidades intrínsecas como as extrínsecas devem ser melhoradas pelos treinadores ou professores, mas também os pais desempenham um papel muito importante no crescimento destes jovens e são o factor vital no desenvolvimento destas crianças. Se por um lado, existem casos em que os jovens não têm apoio nenhum em casa, por outro lado, existem situações em que exigem em demasia deles; tanto um como o outro devem ser suprimidos.

Estarei a escamotear que a vitória não é importante? Nada disso. Sabe bem e é bom ganhar; não podemos é preparar um jovem só para isso. Devemos isso sim, responsabilizá-lo para que ele dê sempre o seu melhor, sabendo que nem sempre irá ganhar ou ser feliz nas suas opções.

Devemos então formar o jovem para a vida, criando-se uma cultura de formar para aprender. Por último, torna-se inevitável realçar que, se não se conseguir o sucesso como jogador ou aluno, que se consiga enquanto ser humano.

Pedro Alegria 2004


Fonte: Treinofutebol.net

Linhas verticais de marcação; princípios operacionais de ataque e de defesa; e as coisas que Claude Bayer não escreveu

No futebol, o êxito de uma equipe tem boa relação com a sua capacidade de alternar princípios ?dominantes? de ataque e defesa

Em uma de suas obras mais importantes, o francês Claude Bayer, propôs um olhar sobre os jogos esportivos coletivos através de princípios operacionais de defesa e princípios operacionais de ataque.

Para cada um deles (defesa e ataque) apontou três princípios orientadores de estratégias para cumprimento das ações defensivas e das ações ofensivas.

Segundo Bayer, os princípios de defesa seriam:

a) Recuperar a posse da bola;

b) Impedir a progressão do adversário (ao alvo ou terreno de ataque);

c) Proteger o alvo de arremates e penetrações.

E os de ataque:

a) Manter a posse da bola;

b) Progredir em direção ao alvo;

c) Finalização da jogada (ao alvo).

Em termos práticos, especificamente pensando em futebol (ainda que aspectos que discutiremos também se apliquem a outros jogos desportivos coletivos), os princípios operacionais de defesa e ataque compõem a dimensão organizacional do jogo. Isso quer dizer que as ações individuais e coletivas de uma equipe respeitam de forma predominante orientações que são regidas por esses princípios.

Então, o processo ofensivo de uma equipe de futebol em um jogo pode em geral estar associado (predominantemente) a um ou mais dos três princípios operacionais de jogo (o mesmo vale para o sistema defensivo).

Em outras palavras, uma equipe pode ter como estratégia dominante impedir a progressão ao seu alvo defensivo (quando se defende), deixando em segundo plano a recuperação da posse da bola ou a proteção do alvo. Dependendo do princípio operacional de ataque “dominante” da equipe adversária, impedir a progressão pode ou não ser vantajoso.

No jogo de futebol o êxito de uma equipe tem boa relação com a sua capacidade (da equipe) de alternar princípios operacionais “dominantes” de ataque e defesa, ajustando-os de acordo com as necessidades da partida e fragilidades do adversário, sem abandonar seu modelo de jogo.

Há porém uma lacuna deixada por Bayer (não aproveitada em maciça maioria), e que no futebol pode definir novas estratégias para o modelo de jogo e êxito no próprio jogo.

Na proposta do francês os princípios são na verdade “macro-princípios” orientadores das estratégias da equipe que “dominam e determinam” de forma geral as ações da equipe, mas que não interage integralmente com outras dimensões do jogo em sua plenitude (dimensões tempo, espaço, tarefa) e que por não apresentar flexibilidade acabar por engessar o pensamento tático-organizacional sobre o jogo.

Como exemplo façamos uma reflexão a respeito das linhas horizontais de marcação.

Não é incomum que tenhamos em uma equipe de futebol estratégias de marcação orientadas pelas linhas “1, 2, 3, 4 ou 5” (horizontais e virtuais). Então em situações e momentos específicos do jogo treinadores podem optar (por exemplo) por iniciar o combate ou tentativa de roubar a bola a partir das linhas 3 ou 4, ou pressionar alto a partir da linha 1.

De forma mais requintada pode definir que seu princípio operacional de defesa (dominante) seja “impedir a progressão ao alvo”, e que isso ocorra a partir da linha 2.

Pode por exemplo, utilizar a mesma linha de referência (a linha 2) mas definir como princípio operacional de defesa “recuperar a posse da bola”.

E é aí que as lacunas começam a aparecer. Se já parece óbvio que (na perspectiva da orientação horizontal do campo de jogo) é possível estabelecer princípios operacionais de defesa (o mesmo vale para os princípios de ataque) diferentes tendo como referência as linhas de marcação (exemplo: na linha 2 = recuperar a posse da bola; nas linhas 3 e 4 = impedir progressão; na linha 5 = recuperar a posse da bola) imaginemos o que não é possível ao considerarmos as linhas verticais ou as faixas laterais, ou ainda uma composição entre referências horizontais e verticais.

O que quero dizer é que ao invés de tomarmos os princípios operacionais de ataque e defesa como princípios de orientação geral na ação dentro do campo de jogo, deveríamos entendê-los como “princípios de orientação regional” (de ataque e defesa) a partir de sua interação com o que eu chamaria de “referências operacionais” do jogo de futebol.

Então, a proposta é que transcendamos a idéia de princípios operacionais de ataque e defesa e alcancemos um entendimento fractal a partir de referências operacionais dentro do jogo.

Em outras palavras não mais pensemos em princípios operacionais de ataque e defesa, e ponto. Busquemos o entendimento, dentro do modelo de jogo, de como organizar princípios a partir de referências do próprio jogo (sejam elas da dimensão tempo, da dimensão espaço o da dimensão tarefa).

Busquemos por exemplo recuperar a posse da bola na linha 1 independente de qual linha vertical esteja ocorrendo a ação adversária; mas se ele alcançar a linha 3, que o princípio de defesa seja recuperar a bola somente quando o adversário atingir a linha “B”; e que enquanto estiver na “A” que apenas impeçamos a progressão ao alvo (progressão ao alvo?progressão ao campo de ataque) – em outras palavras busquemos estabelecer princípios que podem ou não ser diferentes a partir das referências verticais e/ou horizontais.

Mas se a referência não for a dimensão espaço e sim tempo ou tarefa (e/ou todas ao mesmo tempo; COMPLEXIDADE!), que a mesma interação possa ocorrer.

O jogo, assim como a vida é um fenômeno complexo. Os princípios (de ataque, de defesa, do jogo, da vida) também. Então, ou conheçamos e entendamos a complexidade; ou continuemos buscando a receita guardada na gaveta para o “arroz nosso de cada dia”.


Fonte: Universidade do Futebol

A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude Bayer - Parte II: métodos de ensino e treinamento


Reflexão sobre o processo de ensinamento e treinamento no futebol


Renato Francisco Rodrigues Marques


Após discussão anterior relacionada à busca da compreensão do que é composto o jogo de futebol (no artigo intitulado “A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude Bayer I”), torna-se necessária, num processo de reflexão pedagógica acerca dessa modalidade esportiva, uma reflexão sobre o que deve ser ensinado/treinado e como pode ocorrer esse processo.

Quanto ao conteúdo do jogo de futebol, tem-se que este é um jogo esportivo coletivo composto tanto por fatores técnicos quanto táticos, sendo que os primeiros somente têm razão de ser pautados no sentido empregado pelos segundos (GARGANTA, 1995).

Inúmeros trabalhos exploram questões técnicas a respeito do ensino do futebol, caindo, muitas vezes, na mesmice e nas receitas prontas de aulas e treinos. Quanto ao conteúdo tático, este se faz mais complexo e menos explorado pela literatura, porém pode-se observar diferentes tendências em sua análise (MARQUES, 2001).

Neste trabalho, toma-se como base de análise do conteúdo tático as noções de Claude Bayer (1994) e os Princípios Operacionais dos Esportes Coletivos. Dentro da lógica sugerida por este autor, os jogadores respeitam certas diretrizes que norteiam suas ações técnicas em situações de defesa e ataque. Nesse panorama, torna-se importante reflexão sobre como ensinar, ou seja, métodos, instrumentos e procedimentos didáticos que permeiam os processos de preparação de jogadores de futebol.

Seguindo a mesma metodologia de análise de Claude Bayer para uma reflexão acerca da atuação do professor/técnico de futebol, toma-se como referência os jogos esportivos coletivos como um todo, ou seja, busca-se tendências e princípios em comum entre as modalidades esportivas coletivas.

A escolha que um profissional do esporte faz é de grande importância para o sucesso do praticante no processo ensino-aprendizagem-treinamento. O método escolhido deverá facilitar o ensino-aprendizagem, bem como preparar o iniciante para o processo de treinamento, sem, contudo, tornar-se maçante ou desmotivá-lo. Deve ainda proporcionar situações-problemas ou oferecer tarefas a executar que estejam adequadas à capacidade do aluno (GRECO, 1998).

Conforme Dietrich et al. (1984), alguns princípios norteiam a metodologia de ensino dos jogos esportivos, ou seja, correntes teóricas que delimitam os critérios e pontos de ação dos métodos de ensino. Segundo este autor, os princípios de maior destaque são o analítico-sintético e o global funcional.

O primeiro é derivado da corrente associacionista, que influencia a teoria behaviorista. O segundo está apoiado na teoria psicológica da Gestalt que, de forma resumida, expressa que seu todo é mais que a soma das partes (GRECO, 1998). Nesse universo, a função dos métodos de ensino se encontra na indicação dos caminhos e procedimentos a serem tomados num processo de ensino-treinamento com base nos critérios e conteúdos dos princípios.

O princípio analítico-sintético caracteriza-se, principalmente, pelo processo de ensino-treinamento em partes, em etapas, com exercícios que apresentam uma divisão dos gestos, das técnicas, da ação motora em seus mínimos componentes. Ensina-se primeiro o componente técnico do jogo através da repetição de exercícios de cada fundamento técnico, os quais são acoplados a séries de exercícios (GRECO, 1998).

Nesse princípio, que se caracteriza pelo ensino pautado na busca pela gestualização do campeão, ou seja, pela realização técnica tida como mais eficiente, tem-se o contato com o jogo dividido em duas etapas principais, primeiro aprende-se os fundamentos técnicos para, num segundo momento, apresentar conceitos táticos. A premissa que baseia esse processo é que exista uma aplicabilidade direta da técnica aprendida nas séries de exercícios e a realização da mesma no contexto de resolução de problemas do jogo.

Esse aprendizado técnico, segundo o American Sport Education Program (2000), consiste na automatização do movimento através da repetição do mesmo de forma fragmentada e repetitiva. Para isso, é importante que o aluno aprenda cada passo do fundamento a ser ensinado.

Segundo Garret (1958) apud Mesquita (1981), existem ainda diversos enfoques do princípio analítico sintético:

- Método Analítico Puro: Cada parte é aprendida separadamente de acordo com um critério. Depois de que todas as partes são repetidas em uma seqüência como um todo, até que esse todo tenha alcançado o “critério” já obtido pelas partes separadamente;

- Método Analítico Progressivo: As partes 1 e 2 são dominadas separadamente e então combinadas para formar um todo. A parte 3 será, então, depois aprendida separadamente e executa-se a combinação 1 e 2 com 3, e assim sucessivamente coma adição progressiva das partes, até que o todo original tenha sido aprendido;

- Método Analítico Repetitivo: Consiste no domínio da parte 1, passando-se então à prática das partes 1 e 2 juntas, depois às partes 1, 2 e 3 juntas e assim por diante, até que todas tenham sido aprendidas.

Como exemplo de aplicação deste princípio tem-se uma aula com séries de exercícios em que os alunos contornam cones, na expectativa de melhorar sua condução de bola e drible, e posteriormente chutam ao gol bolas passadas pelo professor, sem nenhuma marcação, e apenas problemas de execução motora a serem resolvidos para, num momento final, realizar um jogo formal e aplicar os fundamentos aprendidos em aula.

Como vantagens do uso desse princípio tem-se, segundo Santana (2004), a execução técnica mais eficiente, o êxito na execução, ¬o favorecimento à correção, a facilitação à avaliação de questões técnicas, ¬ a inibição de conflitos, ¬a garantia de uma quantidade generosa de gestos. Como desvantagens, o mesmo autor aponta que não atende o desejo de jogar, a aula torna-se pouco diversificada, separa técnica e tática, treina-se a técnica fora do ambiente de jogo, desfavorece a improvisação e criatividade, desfavorece trocas sociais.

Por sua vez, o princípio Global Funcional caracteriza-se pela intenção de adequar toda a complexidade do jogo esportivo (técnica, regras, conceitos táticos, etc.), através da apresentação de uma seqüência de jogos acessíveis à faixa etária e à capacidade técnica do aluno iniciante (DIETRICH et al., 1984).

Este princípio parte da idéia de fracionar o jogo formal em pequenos jogos, simulando situações reais a serem encontradas pelos alunos. Assim, segundo Greco (1998), o mesmo deverá passar por vários jogos preparatórios para se chegar à prática do jogo final, ou seja, tanto o aprendizado técnico quanto o tático ocorrerão através destes jogos fracionados.

Garganta (1995) adota uma metodologia similar ao princípio Global Funcional, a “Forma Centrada nos Jogos Condicionados”. Esse autor afirma que nesse tipo de teoria o aprendizado técnico se dá em função da tática, ou seja, o aluno desenvolve sua técnica própria de jogo de acordo com suas necessidades dentro do mesmo, construindo, assim, uma técnica eficiente em relação aos problemas que lhe são apresentados no jogo.

O princípio Global Funcional pode ser dividido em 4 (quatro) métodos de ensino, segundo Dietrich et al. (1984):

- Método Global: divisão do jogo formal em pequenos jogos, com características semelhantes às do jogo final, porém, trabalhadas de forma simplificada, com espaços e número de jogadores reduzidos, por exemplo;

- Método de Confrontação: jogar o jogo formal, buscando o aprendizado através do mesmo, através do princípio da tentativa e erro;

- Método Parcial: Treinamento das partes para se chegar ao todo, ou seja, treina-se alguns aspectos menores do jogo, para aplica-los no jogo final;

- Método do conceito recreativo do jogo: Similar ao método global, este visa o aprendizado técnico juntamente com o tático, porém, através de jogos recreativos, ou seja, nem sempre os jogos são provenientes do jogo final, embora contenham características e situações próprias destes.

Nesse princípio, além da premissa de que o jogo se aprende jogando, através de situações-problema oferecidas, tem-se que a técnica do mesmo se dá, em concordância com as idéias de Bayer, vinculadas e pautadas à ação tática do jogo.

Como exemplo tem-se que os alunos podem treinar a condução de bola e o drible num jogo de pega-pega com bolas nos pés, ou num jogo reduzido de 1 contra 1, num campo com limites menores. Nesse processo, tanto a realização motora quanto as razões de sua execução são trabalhadas através de situações-problema a serem resolvidas pelos alunos.

Como vantagens do uso desse princípio tem-se, segundo Santana (2004), que atende o desejo de jogar, as habilidades são aprendidas no contexto do jogo, técnica e tática são desenvolvidas de forma conjunta, favorece experiências do jogo, favorece trocas sociais, requer pouco material. Como desvantagens, tem-se ¬muitas informações ao mesmo tempo, a possibilidade de execução errônea das habilidades, desfavorece a relação com a bola em alguns momentos de jogo.

Dentro desse princípio (global funcional) podem ser citados inúmeros outros métodos, como por exemplo, a Forma centrada nos Jogos Condicionados de Garganta (1995), a proposta de ensino através dos jogos de Freire (1998), entre outros, que, pautados numa visão mais moderna do ensino do futebol, buscam ensinar o jogador a resolver problemas e agir de forma técnica dentro do jogo, desenvolvendo a capacidade de avaliar, raciocinar e resolver as situações que lhe são apresentadas.

Não é pretensão deste artigo afirmar que existem apenas essas duas formas de reflexão sobre métodos de ensino para o futebol, muito menos estabelecer qual é a melhor ou a pior, porém, é necessário admitir que existem jogadores consagrados que aprenderam a jogar vivenciando tanto jogos reduzidos e adaptados, quanto séries de exercícios e fracionamento das ações técnicas. Por essa razão, num primeiro momento, a idéia é apresentar tais possibilidades e pontuá-las de forma a serem utilizadas de acordo com as necessidades, intenções e possibilidades do professor e dos alunos, na busca por melhores processos de ensino-treinamento.

Mora nesse ponto o papel do pedagogo do esporte que, de acordo com suas convicções, conhecimento e objetivos, deve escolher quais os caminhos de seu trabalho, porém de forma consciente e dirigida.

* Mestre em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas/SP – UNICAMP e Docente da Faculdade de Ciências e Letras de Bragança Paulista/SP - FESB



REFERÊNCIAS


AMERICAN SPORT EDUCATION PROGRAM. Ensinando basquetebol para jovens. São Paulo: Editora Manole, 2000.

BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros, 1994.

DIETRICH, K.; DÜRRWÄCHTER, G; SCHALLER, H-J.Os grandes jogos. Metodologia da prática. Rio de Janeiro:Ao livro técnico, 1984.

FREIRE, João Batista. Pedagogia do futebol. Londrina: Midiograf, 1998.

GARGANTA, Júlio. Para uma teoria dos jogos desportivos colectivos. In: GRAÇA, A. OLIVEIRA, J. (Orgs.) O ensino dos jogos desportivos. Porto: Universidade do Porto, 1995.

GRECO, Pablo Juan. Iniciação Esportiva Universal: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

MARQUES, Renato F. R. Sistematização do ensino dos esportes coletivos para crianças de 9 a 12 anos de idade: o caso do Futsal. Monografia (2001).

Faculdade de Educação Física da UNICAMP, 2001.

MESQUITA, Clodoaldo Paulo de. Comparação entre três métodos de ensino (Analítico, Todo-Parte, Global em Forma de Jogo), na aprendizagem de futebol em crianças com idade média de 10 anos. Dissertação de mestrado (1981).

Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo, 1981.

SANTANA, Wilton Carlos de. Futsal: apontamentos pedagógicos na iniciação e na especialização. Campinas: Autores Associados, 2004.


Fonte: Universidade do Futebol

A compreensão do futebol como um jogo esportivo coletivo e os princípios operacionais de Claude Bayer - Parte I


Complexidade do futebol é elemento fundamental para análises sobre o tema


Renato Francisco Rodrigues Marques


Um jogo de futebol é composto de 11 jogadores para cada lado, que disputam a posse de bola com a finalidade de colocá-la dentro da baliza adversária. No entanto, a presença desses jogadores não garante que acontecerá uma partida de futebol, é necessária a interação dos atores com seus colegas e com a equipe adversária para que isso ocorra. Ou seja, o futebol é um encontro complexo entre oponentes e parceiros, e sua inter-relação forma o contexto do mesmo.


Nesse sentido, Scaglia (2003) aponta que as partes isoladas de um jogo permitem determinar comportamentos e não o jogo em si como um todo complexo e contextualizado. Não é apenas a fragmentação das ações e situações que possibilitam a compreensão do ato de jogar, mas sim, o estabelecimento de formas de relação entre razões (por que fazer) e ações (o que e como fazer).


Esse quadro faz do jogo de futebol, assim como qualquer outro esporte coletivo, um campo no qual se interagem ações individuais, o que gera uma ação grupal. Essa compreensão se faz importante porque não é a realização motora (técnica) que dá razão de ser ao jogo, mas sim, seus objetivos, regras e contextos, que norteiam as intenções e razões das ações (tática).


Por essa razão é que, num processo de ensino ou treinamento dessa modalidade, algumas questões devem ser consideradas por técnicos e professores. Em primeiro lugar, é preciso conhecer o que são os jogos coletivos, suas particularidades, objetivos e limites de ação. Segundo, como deve atuar o sujeito em jogos esportivos dessa natureza. E em terceiro, como ensinar ou como treinar jogadores da melhor maneira possível dentro dessas informações.


O segundo e terceiro tópicos dizem respeito, de forma mais específica, a questões pedagógicas e de conhecimento próprio da modalidade em questão, porém, só têm razão de ser baseadas no contexto elaborado pelo primeiro.


Nesse sentido é que se torna útil a busca pelo que deve ser ensinado, ou seja, uma maior exploração sobre a compreensão de o que são os esportes coletivos e o que dá sentido às ações no campo de jogo.

Existem inúmeros referenciais teóricos que exploram uma melhor compreensão dos esportes coletivos. Para esse trabalho será utilizada a obra de Claude Bayer, autor francês que desenvolveu uma teoria de compreensão e ensino desses jogos.

A premissa desse autor é que os jogos esportivos coletivos têm em comum uma série de princípios operacionais que podem ser compreendidos e exemplificados em diversas modalidades. A forma que Bayer (1994, p.32-33) aponta essa indicação é através da identificação de invariantes, ou seja, características em comum entre todas as modalidades esportivas coletivas:


- BOLA: esférica ou oval, as regras da modalidade determinarão como esta deverá ser manipulada;

- TERRENO DEMARCADO: dentro do qual se desenvolverá a partida;

- ALVO A ATACAR E ALVO A DEFENDER: objetivo da modalidade, marcar o ponto e procurar impedir o adversário de marcar;

- PARCEIROS: ajudam na progressão da bola e na defesa do alvo;

- ADVERSÁRIOS: estes devem ser vencidos para a marcação do ponto;

- REGRAS DO JOGO: devem ser respeitadas.


As modalidades coletivas são jogos de oposição, isto é, duas equipes que têm o mesmo objetivo e se opõem durante uma partida de modo a medirem forças na tentativa de superar o esforço adversário.


Como base para essa compreensão, Bayer (1994, p.47) define os Princípios operacionais do ataque e da defesa em modalidades coletivas, e o conceito de regras de ação como os jogadores aplicarão tais princípios durante o jogo. É importante considerar que, para esse autor, a equipe está em situação de ataque quando detém a posse de bola, e na situação contrária, encontra-se na defesa.


Tais princípios seriam as funções do ataque e da defesa durante a realização de uma partida. São formas de ação que norteiam o ato de jogar coletivamente, dão sentido ao jogo e formam a lógica central de sistemas, estratégias, padrões e intenções durante uma partida. Existem com base nas regras e exigências de realização impostas pelos jogos esportivos coletivos.

PRINCIPÍOS OPERAICONAIS DOS ESPORTES COLETIVOS

ATAQUE

DEFESA

Manutenção da posse de bola

Recuperação da posse de bola

Progressão ao campo do adversário

Contenção do avanço adversário

Finalização à meta

Defesa da meta

(Adaptado de Bayer, 1994)


Como uma exploração mais detalhada tem-se (MICHELINI, 2007, p.48):


Conservação da bola / Recuperação da bola - Enquanto o ataque coordena suas funções de modo a conservar a posse de bola, esperar o momento certo, procurar desequilibrar a defesa e selecionar o melhor ataque. Por sua vez, a defesa terá por oposição a essas atitudes ofensivas, recuperar a posse de bola de modo que depois de recuperada a bola se inverta os papéis e, assim, o time que antes defendia teria a oportunidade de atacar após recuperar a posse de bola.


Progressão dos jogadores / Impedir a progressão - Por se tratar de um jogo de invasão, sendo que no campo adversário está o alvo a ser atacado para a realização do ponto, é de extrema importância que o ataque consiga se aproximar do alvo. Quanto mais próximo do alvo chegar mais chance de êxito o ataque terá. De maneira antagônica, é interessante para a defesa proteger seu campo e sua meta de forma a coordenar suas funções visando afastar o máximo possível o ataque adversário de sua meta, dificultando assim a finalização do ataque.


Atacar a baliza / Proteger a baliza - Seria o objetivo dos jogos coletivos, vence a equipe que marcar mais pontos. Dessa forma, em busca da vitória, cada equipe deve considerar dois pontos: a) ataque à baliza para a realização do ponto; b) proteção da baliza para a não realização do ponto do adversário.


Os princípios operacionais descritos por Bayer (1994) se relacionam entre si, isto é, para o sucesso da ação coletiva de ataque ou defesa todos eles são igualmente importantes, não havendo hierarquia de importância entre os princípios operacionais.


Pode-se perceber que os princípios operacionais são antagônicos, isto é, cada um dos princípios de ataque tem um correspondente defensivo que tem por objetivo anulá-lo. A tendência durante o transcorrer de uma partida é que esses princípios se anulem e estabeleçam equilíbrio devido ao fato de serem antagônicos no ataque e na defesa. Mora nesse ponto o fator de grande importância no futebol. A equipe que conseguir desequilibrar essa relação a seu favor, tem maiores possibilidades de vitória.


É nas entrelinhas desse embate entre ataque-defesa que se encontra o fator de interesse e de atuação de técnicos e professores. O que fazer para cumprir com eficácia os princípios operacionais de modo e “desequilibrar” a balança do jogo a seu favor.


Para resolver tal questão, é necessário compreender especificidades das modalidades esportivas e explorar suas Regras de ação, que segundo Bayer (1994), são as maneiras de intervenção do jogador durante a partida, norteadas pelo sentido tático do jogo.

Portanto, para uma compreensão do que são esportes coletivos e do que é que norteia as ações do jogador, e conseqüentemente, os princípios do treinamento/ensino técnico/tático, uma forma interessante não é se apoiar em questões fragmentadas em atos motores e realizações meramente eficientes tecnicamente, mas sim, buscar situá-las num contexto de jogo, suas razões e formas de aplicações, atreladas à resolução de problemas e busca por soluções que sejam coerentes com a dinâmica e com os princípios conformadores do jogo. No caso dos esportes coletivos, uma forma é tomar como base os limites das invariantes e o sentido dos Princípios Operacionais.


O desenvolvimento de métodos e processos pedagógicos só se justifica se vinculado a um princípio de compreensão do quê será ensinado. É nessa direção que a contribuição de Bayer (1994) não se faz definitiva, mas interessante e enriquecedora como alicerce para pedagogos do esporte determinarem sua forma de trabalho e, mais importante, o conteúdo a ser administrado em processos de aprendizagem/treinamento do futebol.


Bibliografia


BAYER, Claude. O ensino dos desportos colectivos. Lisboa: Dinalivros, 1994.

MICHELINI, Marcelo Compagno. Teoria de esportes coletivos de Claude Bayer: o Futsal. (2007) Monografia. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007.

SCAGLIA, Alcides. O futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés: todos semelhantes, todos diferentes (2003). Tese de Doutorado. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003.


Fonte: Universidade do Futebol

Evolução tática e um novo pensamento sobre o jogo


Muito se fala sobre a evolução dos esquemas táticos, mas poucas vezes é abordado o papel do atleta nessa preparação


Existem dezenas de publicações no Brasil e mais um sem número além de nossas fronteiras que tomam pelo menos um capítulo para discorrer sobre a evolução dos “esquemas táticos” no futebol.

Interessante que, seja para discutir em linha histórica suas modificações, seja para “fragmentar” seu funcionamento, é fato que quando convêm, esses “esquemas táticos” são tratados como a essência, a parte mais importante para uma vitória ou para uma derrota (vide as velhas/novas discussões sobre a equipe ser mais ou menos ofensiva por jogar com dois ou três zagueiros; três ou dois atacantes; dois ou um volante) e quando não, como algo sem importância, estanque, fotográfico, fora do contexto.

Existem, porém, duas coisas concretas, que ganham corpo através do olhar científico:

• Em uma linha evolutivo-histórica os “esquemas táticos” no futebol têm evoluído de jogadores altamente especializados em defender ou atacar, para jogadores “gabaritados” para as duas coisas: atacar e defender (são os jogadores com habilidades “gerais específicas” ou “ger-específicas”). Notemos que por volta de 1863 o “esquema tático” utilizado era o 1-1-8, e em 2006 as duas seleções finalistas da Copa do Mundo da Alemanha se utilizaram em boa parte dos jogos o “esquema” 4-5-1 em que dos quatro da linha de defesa, alternadamente dois participavam de situações de ataque. Ou seja, no D-M-A (defesa-meio-ataque) dos “esquemas táticos”, em 1863 o “D” era igual a 1 (e esse 1 altamente especializado em uma coisa só, defender), o “M” era igual a 1 e o “A” igual a 8 (também altamente especializados em uma coisa só, atacar). Hoje temos, por exemplo, tanto no 3-5-2, 4-4-2, 4-5-1 um “M” bem maior (5;4;5) e um “D” e um “A” não mais tão especializados (pois precisam de jogadores capazes de defender e atacar, assim como os da posição “M”);

• Os “esquemas táticos” na verdade são “plataformas de jogo”, e não devem ser entendidos em suas partes (defesa, meio, ataque) para que se compreenda o todo, mas sim como sub-sistemas (dinâmicas, estratégias, táticas e interações) que compõem o todo. Em outras palavras, em vez de buscarmos compreender a linha de defesa, a de meio e a de ataque separadamente para compreender como joga uma equipe, devemos compreender as interações constantes no todo de acordo com as dinâmicas e situações de jogo, considerando o jogo como um todo (22 jogadores se movimentando dentro de uma lógica de equilíbrios e desequilíbrios que se alternam o tempo todo no confronto 11 x 11, que mesmo numa situação de conta-ataque (por exemplo) 4 x 3, o conflito continua sendo 11 x 11 – pois todos os jogadores se ocupam da circunstância, seja ela qual for).

Dessa forma, o novo paradigma ao se pensar em tática no futebol deve ser aquele que compreenda a complexidade do jogo, no qual todos os jogadores compõem os seus sistemas e sub-sistemas e participam do sistema defensivo ou ofensivo. Então, a grande evolução dos “esquemas de jogo” não está nos seus desenhos, mas no entendimento por parte dos jogadores do seu funcionamento, da lógica que orienta o “esquema”, das possibilidades ofensivas e defensivas que surgem dele como todo.

Que diferenças existem entre a forma de se montar uma equipe para atuar no futebol brasileiro e no europeu?

Existe uma idéia (errada) de que os jogadores no Brasil não gostam de raciocinar taticamente e que não têm compromisso tático com sua equipe e treinador. Existe outra idéia (também errada) de que quando vão para a Europa eles são “obrigados” a se encaixar nas filosofias de trabalhos táticos e então se tornam mais “disciplinados” taticamente.

Não tenho receio em afirmar que os jogadores brasileiros são sim inteligentes para jogar e raciocinar sobre futebol; são sim capazes de se comprometer taticamente com sua equipe e treinador. A questão é que não são estimulados para isso, não são desafiados a compreender o jogo de futebol como jogo.

Existem diversos trabalhos na literatura científica, fora do futebol, com crianças e adolescentes que apontam para o fato de que os estímulos são potencialmente relevantes para o desenvolvimento da inteligência e que nós seres humanos temos grande potencial para desenvolvê-la. O que diferencia o maior desenvolvimento de alguns sobre outros é a qualidade dos estímulos a que são submetidos. É evidente que teremos pessoas com maior potencial do que outras; mas mesmo uma com potencial menor pode se desenvolver mais do que outra com maior potencial se receber estímulos mais adequados do que ela.

Com os jogadores de futebol não é diferente. Todos podem potencialmente participar de boas plataformas de jogo, colaborar de forma inteligente para o desempenho tático da equipe e responder com qualidade a variações dentro do jogo.

O fato é que se perde muito tempo nos treinamentos com partes do jogo que na realidade não fazem parte do contexto do jogo. Por exemplo: treina-se finalização a gol obrigando o jogador chutar 50, 80, 100 vezes a bola a gol depois de driblar um cone (e às vezes, o que é pior, a bola é passada de lado pelo próprio treinador). No jogo não existe cone fazendo a marcação. No jogo não vão existir 50 chances sem confronto contra um adversário que pode potencialmente atrapalhar a conclusão da mesma. No jogo o contexto é outro, bem diferente.

Então o jogador treina, treina e melhora no treino. E o que é pior: sustenta o paradigma de que treino é treino e jogo é jogo (quando deveria ser “treino é jogo e jogo é treino”).

Um treinamento como o mencionado acima não desafia o jogador para refletir taticamente sobre o jogo. Os menos entusiasmados poderão dizer: “mas treino de finalização é treino técnico”. Pois é, senhores, mais uma prova de que esse treinamento nada tem com o contexto do jogo; pois no jogo não é possível separar o que é técnico do que é tático, físico ou mental, porque tudo está acontecendo o tempo todo ao mesmo tempo.

Obviamente que esse “problema tático” vem das categorias de base, que investem incomparavelmente mais na captação de novos talentos do que na “formação” de novos talentos (mas isso é assunto para outro tipo de discussão).

Dentro desse cenário, não dá mais para acreditar que o jogador brasileiro vai jogar na Europa e “fica inteligente” taticamente (não acredito que a maior parte das equipes propiciem estímulos que sigam essa linha de raciocínio sobre a compreensão do jogo). Mas é fato que em alguns centros europeus é maior a proximidade entre a ciência das universidades e os grandes clubes de futebol, o que acaba transformando profissionais em bons profissionais (que exercitando conhecimento científico de ponta, possibilitam transformar jogadores em grandes jogadores e equipes em grandes equipes).

Essa proximidade faz com que o TODO seja mais exigente sob todos os aspectos. Quando o jogador chega à Europa, em alguns países, encontra um ambiente propício para o desenvolvimento da compreensão tática do jogo. O TODO se mantém e o jogador passa a compô-lo.

No Brasil, os ambientes trazem paradigmas engessados e muitas vezes acaba-se por fazer o que é possível em curto prazo: estruturar o “esquema tático” (plataforma de jogo) de acordo com os atletas que se têm.

Parece uma obviedade, mas ao nos atentarmos (por exemplo) para o fato de que José Mourinho no Porto trabalhou com a plataforma base no 4-3-3 mesmo alternando diversas vezes a escalação e a própria plataforma; que no Chelsea estruturou a mesma plataforma (4-3-3) com outros jogadores (com os mesmo grandes resultados) e que ele estrutura seu trabalho no paradigma de que os jogadores precisam compreender a lógica do jogo independente da plataforma; é plausível afirmar que é possível estimular os jogadores a entenderem qualquer plataforma de jogo, sem que seja necessário necessariamente adequar a plataforma aos jogadores.

Se o trabalho nas categorias de base estivesse melhor estruturado, para desafiar e estimular os jogadores a compreenderem o jogo, desenvolvendo-os técnica-tatica-física-mentalmente no contexto do próprio jogo, não seria necessário muito tempo para organizar qualquer plataforma concebida pelo treinador na equipe profissional.

Dentro da perspectiva mencionada anteriormente, ao analisarmos laterais e alas, ou a transição dos laterais para os ditos alas é interessante percebemos que os laterais eram jogadores que tinham como função principal auxiliar o setor defensivo. Aos poucos isso foi evoluindo, e o que era setor defensivo passou a contemplar o meio campo e logo em seguida o ataque. Percebam que essa “evolução” da defesa para o ataque representa um grande número de momentos de equilíbrios e desequilíbrios que resultaram em algo inesperado; se antes o lateral era especializado em marcar, hoje está se especializando em atacar, de tal forma que essa transição exigiu dos jogadores dessa posição maior capacidade ger-especializada para poder defender, armar e atacar. Se por um lado a transição exigiu o que exigiu, hoje a transformação de laterais em alas tem regredido ao ponto inicial; ao invés de um ger-especialista temos agora um especialista em atacar com dificuldades em marcar (antes era especialista nisso).

Então, num primeiro momento, a importância dada a essa posição fora pela possibilidade de, tendo um jogador ger-especialista poder transformá-lo em lateral ou ala de acordo com as necessidades do jogo. Hoje a importância se dá pela dificuldade em encontrar esse jogador (ger-especialista) já que ele está evoluindo (desculpem, regredindo!) para nova especialização.

A evolução dos laterais que só defendiam para realidade que existe hoje segue a tendência para todos os setores e funções do campo de jogo: o jogador especialista que tende a se transforma em ger-especialista; o jogador que só defendia ou só atacava ou só armava e que agora precisa saber defender e atacar e armar.

As possibilidades táticas a partir disso são inúmeras; independentemente da plataforma de jogo e de tal forma que o treinador de futebol terá que ser cada vez mais estrategista para poder conduzir a sua equipe durante o jogo.

Aí podem surgir perguntas, como por exemplo: “se os laterais à moda antiga vão acabar?”. Se o “à moda antiga” se referir a jogadores altamente especializados em um tipo de ação, desestimulados a refletir sobre o jogo, seria prudente afirmar que os laterais ou outras posições com a função à moda antiga vão acabar. Vai acabar a função, e só ela.

Mas seria ótimo termos jogadores à moda antiga, que levavam da rua e do campo de terra batida a “inteligência ácida” que fazia do futebol um espetáculo que desafiava a criatividade de adversários, companheiros de equipe e torcedores.

O “fim da função como ela era” associado ao “êxodo” de atletas brasileiros para a Europa tem exigido cada vez mais de treinadores e comissões técnicas no Brasil, competência, conhecimento e sabedoria.

A evolução tática no mundo caminha para a compreensão da lógica que orienta o jogo de futebol. Em outras palavras, cada vez mais, buscar-se-á no futebol entender quais variáveis técnicas-táticas-físicas-mentais são determinantes para a vitória ou derrota no jogo e como treiná-las de forma contextualizada garantindo que o treino sirva de estímulo para desafiar o jogador a compreender o jogo.

No Brasil, caminhamos a passos bem curtos na direção da “evolução tática”. Nas exceções encontramos equipes estáveis, que se encaminham para a direção certa. Mas mesmo as exceções estão atrasadas.

Infelizmente ainda se acredita que é o número de atacantes, ou zagueiros, ou volantes que deixa uma equipe mais ofensiva ou mais defensiva. Infelizmente, ainda se acredita que é treinando as partes do jogo (físico separado do tático, separado do técnico; técnico previsível e descontextualizado) que se prepara uma equipe para o “todo” que é o jogo. Infelizmente, poucas pessoas terão interesse em compreender o que fora mencionado nesse texto. Infelizmente, no nosso país, jogadores “derrubam” treinadores pela incapacidade e/ou impossibilidade de se criar ambientes propícios para o desenvolvimento profissional das equipes.

Enquanto acreditarmos que “evolução tática” se refere a qual “esquema tático” será a “vedete” da vez ou qual (“esquema tático”) pode ser “criado” para dar mais consistência defensiva sem perder o poder ofensivo, eu diria que continuaremos vivendo na “Era Glacial Tática”: tudo congelado!

E aí, melhor para os que estão à frente nesse caminho, porque continuarão à frente enquanto o futebol for pensado como sempre foi.


Fonte: Professor Rodrigo Leitão - Universidade do Futebol

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Evolução da periodização no futebol: uma questão epistemológica

Uma análise sobre a preparação física e os treinamentos, suportados pela abordagem sistêmica

Autor: Renato Buscariolli de Oliveira e William Sander Figueiredo*

A palavra “periodização” deriva da palavra “período” e nada mais é do que a divisão do tempo em pequenos seguimentos, ou ciclos de treinos, com características e objetivos específicos determinados de acordo com a especificidade de cada desporto. O objetivo desta divisão é facilitar a organização e adequação das cargas de esforço para cada momento do ano competitivo visando o aumento da performance.

Tradicionalmente, a periodização do treino tem assentado numa base predominantemente referenciada aos aspectos de adaptação morfológica, fisiológica ou bioquímica do organismo. Esta perspectiva, embora produtiva quando se pretende resolver questões mais restritas, apenas traduz uma visão parcelar e fragmentada do processo de treinamento em modalidades coletivas complexas como o futebol. Nesse sentido, citamos abaixo as duas primeiras “escolas” de periodização, bastante solidificadas e difundidas na ciência do treinamento.

A primeira delas (também denominada “tradicional”), originária do Leste Europeu e proposta pelo soviético Lev Pavlovic Matveiev em 1950, caracteriza-se pela divisão da época desportiva em períodos, estruturados para atingir “picos de forma” em determinados momentos competitivos. Este modelo de preparação confere primazia à variável física, assente numa preparação geral e não possui qualquer ligação com a forma de jogar. Deste modo, preconiza um processo abstrato centrado nos fatores da carga física, através de métodos analíticos. A segunda “escola” (também denominada “contemporânea”), com origem nos países do Norte da Europa e América do Norte tem como ícone Yuri Verkhoshansky e tentou transcender o caráter universal da primeira tendência, dando grande importância ao desenvolvimento das capacidades físicas exigidas na competição. Desde então, exacerbou-se a avaliação das cargas através dos testes físicos procurando conhecer assim, a forma dos jogadores. Além disso, esta tendência de treino caracteriza-se por desenvolver a variável física, técnica e psicológica em separado.

Na busca de adequar a preparação dos atletas às necessidades requeridas no futebol moderno e a tentativa de integrar as diferentes áreas do conhecimento ligadas à modalidade, novas propostas de periodização surgiram: cargas ondulatórias (Tschiene, 1990) e o modelo de Cargas Seletivas (Gomes, 2002). Essas novas propostas (principalmente a última) podem se adentrar em uma tendência designada “Treino Integrado” - onde os aspectos físicos, técnicos e táticos são desenvolvidos conjuntamente – e procuram promover uma maior semelhança com as exigências da competição conferindo uma grande importância ao jogo e à sua especificidade.

Um “pit stop” reflexivo do conteúdo abordado até aqui nos permite visualizar que a tendência da preparação física no futebol ao longo dos tempos é de se aproximar cada vez mais do jogo em si. Essa aproximação por sua vez, coloca essa área no mesmo patamar de outras não menos importantes (psicologia, nutrição, pedagogia, etc) evidenciando a tão citada interdisciplinaridade. Na prática isso significa que a preparação física não mais será o “norte” no planejamento de uma equipe para uma determinada competição. Isso quer dizer que o preparador físico tonar-se-á “menos importante?” Ou que não será mais necessária a preparação física? Ou agora serão os técnicos e técnicos adjuntos que se responsabilizarão por essa área, acabando com a figura do “especialista” – preparador físico - no futebol? Caro leitor, muito calma nessa hora...

Como já explícito, a estruturação de todo o processo de planejamento e periodização do treino em futebol, passou e ainda passa pelo componente dito “físico”. A periodização física convencional está instituída no futebol e apesar de parecer desajustada ainda prevalece metodologicamente como núcleo central de preparação. Teodorescu (2003) salienta que grande parte das opiniões e teorias da psicologia, da pedagogia bem como da teoria da educação física sobre o jogo, são formuladas a partir de posições biológicas e biogizantes. De fato, no desporto de rendimento está fortemente enraizada a crença de que a excelência no desempenho desportivo pode ser obtida mediante a melhoria na condição física (Tani, 2001). Historicamente, esta crença deve-se à grande influência exercida pela Fisiologia do Exercício, que apresenta uma perspectiva eminentemente energética de movimento.

Surge-nos assim vincado aquilo que podemos designar por um paradigma da dimensão física do treino, que realça a importância da dimensão física no seio do Planejamento e Periodização. Ao referenciarmos a performance a partir de fatores energéticos, biomecânicos e das características fisiológicas dos jogadores, os comportamentos destes serão perspectivados enquanto produto de uma maior ou menor adequação do organismo às exigências energéticas e funcionais do jogo, tendo em conta a unidade entre o estímulo e a resposta, desconsiderando as configurações tácticas que os induzem (Garganta et al, 1996). Isso impede uma tomada de consciência molar dos problemas do jogo, dado que não serão equacionadas as interações que se estabelecem no seio da equipe, entre os jogadores, face à relação de oposição – cooperação.

Assim sendo, apesar da investigação científica ter inferido uma relação causa-efeito de caráter bio-fisiológico na aplicação dos métodos de treino baseados na coerência estrutural daquilo que convencionalmente se denomina componentes da carga (volume, densidade, intensidade e freqüência), isso nada nos elucida sobre a eficácia do comportamento motor utilizado pelos jogadores para a resolução de uma situação competitiva qualquer. Compreender a ação biológico-fisiológica dos exercícios é importante e necessária por parte daqueles que estão aplicando o treino para conhecer o efeito imediato, assim como os efeitos crônico-adaptativos de uma determinada sessão, microciclo ou mesociclo (Tscheine, 1987). No entanto, as modalidades desportivas de caráter aberto, como o futebol, não podem desenvolver os seus métodos de treino partindo simplesmente do manuseamento das denominadas componentes da carga.

Dessa forma, podemos dizer que a “preparação física” no futebol atravessa de forma lenta e gradativa (como é o progresso da ciência) uma mudança paradigmática e epistemológica. Os fatos nos levam a crer que não mais o componente biológico seja o norteador do planejamento de uma equipe, independente do seu nível e/ou faixa etária. A Periodização (divisão) continua, porém muda o seu foco. Talvez a “Periodização Tática” (“processo de preparação centrado na operacionalização de um “jogar” através da criação e desenvolvimento contínuo do Modelo de Jogo” – Vitor Frade, 2006) que é para muitos algo novo, desconhecido, seja a norma dentro do futebol em um futuro próximo. Cabe a nós, profissionais da bola, “corrermos atrás” das mudanças, nos adequarmos e nos reciclarmos. A abordagem sistêmica cada vez mais ganha espaço dentro dessa modalidade. Contudo, profissionais completos, “sistêmicos”, “complexos”, holísticos e que se atualizam constantemente serão necessários para que essa abordagem se efetive verdadeiramente.

Talvez hoje o “componente físico” esteja se redimensionando dentro do futebol e não simplesmente sendo “deixado de lado”. Analogamente, o mesmo ATP (sigla referente à adenosinatrifosfato, nossa “moeda energética” dentro do metabolismo) que era responsável por um jogador correr em média 6 km por partida na década de 60, hoje permite que os atletas corram cerca de 12 km. O jogo é o mesmo, as regras são as mesmas, o ATP é o mesmo. Foram apenas 50 anos de evolução. O que mudou? Para terminar essa parte do texto (já que o assunto não se esgotou nesse documento), terminamos com uma pergunta capciosa e polêmica.


“Será que no futebol ganha quem salta mais?



Quem corre durante mais tempo? Quem é mais rápido?



Ou será que normalmente ganha quem joga melhor futebol?”



BIBLIOGRAFIA

“A Ciência do Desporto a Cultura e o Homem”. Jorge Bento e Antonio Marques. Universidade do Porto. Porto, 1993.

“O Planeamento e a Periodização do Treino em Futebol – Um estudo realizado em clubes da Superliga”. Tese de Mestrado. Pedro Manoel de Oliveira Santos. Universidade Técnica de Lisboa, 2006.

“Do pé como técnica ao pensamento técnico dos pés. Dentro da caixa preta da Periodização Tática. – Um estudo de Caso”. Trabalho Conclusão de Curso. Marisa Silva Gomes. Universidade do Porto, Porto, 2006.

* Renato Buscariolli de Oliveira é bacharel em Treinamento Desportivo, mestrando em Biologia Funcional e Molecular - IB, pós-graduando em Bioquímica, Fisiologia, Treinamento e Nutrição Desportiva e membro do Laboratório de Bioquímica do Exercício - Labex, pela UNICAMP

Fonte: http://www.cidadedofutebol.com.br/Universidade/Web/Site/index_area_tecnicopedagogica.asp?arq=artigo.asp&id_cont=1822