

Misuta vem trabalhando com o sistema desde a iniciação científica, sempre sob a orientação do professor Ricardo Machado Leite de Barros, da FEF. O rastreamento automático de jogadores, segundo o autor da tese, é objeto de investigação de pesquisadores tanto da área da biomecânica quanto da computação. No caso em questão, o desenvolvimento metodológico foi realizado com a colaboração de especialistas do Instituto de Computação (IC) da Unicamp. A partir da obtenção das informações relacionadas ao jogo, o estudo contou também com a cooperação de pesquisadores das áreas de matemática, estatística e bioquímica para o desenvolvimento das formas de análise.
Dito de maneira simplificada, o rastreamento automático dos esportistas segue as seguintes etapas. Primeiro, o jogo é filmado por um conjunto de quatro ou cinco câmeras, que são dispostas em pontos estratégicos do estádio ou ginásio. O autor da tese explica que os equipamentos devem ser distribuídos de modo a cobrir todo o campo ou quadra. Em seguida, as imagens são processadas no Sistema Dvideo, que foi desenvolvido no laboratório de Instrumentação para Biomecânica, para a obtenção da posição em função do tempo de todos os jogadores durante toda a partida. “A partir daí, nós fazemos as análises e calculamos a distância percorrida, as velocidades máximas e mínimas e a aceleração utilizada em cada momento do jogo”, detalha.
De acordo com Misuta, o sistema já foi aplicado em cerca de dez partidas de futebol. “Também testamos o método em jogos de futebol de cinco [praticado por deficientes visuais], rúgbi sobre cadeiras de rodas e handebol. Em todos eles o sistema se mostrou bastante confiável. Entretanto, somente no futebol foi possível rastrear automaticamente cerca de 90% dos movimentos dos atletas. Em alguns casos, parte do trabalho teve que ser feita manualmente”, observa. Questões técnicas explicam essas distinções. Um dos fatores que dificultam o rastreamento automático consiste nas situações de oclusão mútua entre jogadores. É o que normalmente acontece quando da cobrança de escanteio no futebol, ocasião em que atacantes e zagueiros ficam “embolados”. “Nesse caso, há a necessidade da intervenção do operador, que faz o rastreamento de forma manual”, diz.
No caso do rúgbi sobre cadeiras de rodas, conforme o educador físico, o índice de rastreamento automático é bem menor. “Os fatores brilho da quadra e surgimento de sombras, que estão relacionadas com a influência da iluminação, interferem na qualidade da imagem. Além disso, as cadeiras são grandes e muito parecidas umas com as outras, o que faz com que o sistema tenha dificuldade em identificar os atletas. Esse tipo de problema, porém, pode ser resolvido com o aprimoramento da ferramenta ou com a adoção de uniformes e equipamentos que diferenciem um time do outro”, assegura Misuta.
Os dados fornecidos pelo método, prossegue ele, podem ser muito úteis a treinadores e preparadores físicos, desde que sejam devidamente interpretados. “Nós apresentamos o sistema a técnicos que não demonstraram grande entusiasmo por ele. Outros, no entanto, o consideraram muito interessante. Acho que com o tempo esses profissionais perceberão a importância desse tipo de recurso, assim como já vem acontecendo na Europa”, infere o autor da tese. Para ilustrar como as informações fornecidas pelo sistema de rastreamento automático de jogadores podem ser úteis, Misuta cita o caso do preparador físico da seleção brasileira de futebol de cinco. A partir do relatório com as informações (distância percorrida, velocidade, entre outros) de todos os jogadores, o profissional redimensionou o treinamento de toda a equipe com vistas à disputa do campeonato mundial da categoria.
A informação precisa da condição física do elenco em cada etapa do treinamento, relatada o educador físico, foi fundamental para que o técnico traçasse estratégias táticas em função do condicionamento dos jogadores. “Naquele campeonato, a seleção brasileira apresentou um padrão de jogo com muita velocidade em todas as partidas e sagrou-se campeã da competição”, lembra. Informações sobre o rendimento dos atletas durante os jogos também podem ser utilizadas de outra forma, como assinala Misuta. Ao analisar o comportamento de um atacante numa determinada partida, o preparador físico pode, por hipótese, verificar que o zagueiro percorreu seis quilômetros durante o primeiro tempo e reduziu para quatro, no segundo. “Se essa mudança não tiver sido por orientação do treinador, que decidiu manter o jogador mais plantado, isso pode ser sinal de que o defensor demonstrou cansaço e que talvez seja recomendável trabalhar mais a sua resistência”, teoriza.
A tendência, reflete o pesquisador, é que o sistema de rastreamento evolua a ponto de gerar dados em tempo real. Caso isso se confirme, será possível ao treinador, por exemplo, utilizar as informações para corrigir o posicionamento ou deslocamento de um jogador com a partida em andamento. O sistema validado pelos pesquisadores da FEF não se limita à análise de atletas de esportes coletivos, como faz questão de destacar Misuta. Segundo ele, o método também pode ser aplicado a praticantes de modalidades individuais como atletismo, natação etc. “Claro que isso pode exigir alguma adaptação, mas não vejo problema em estender esse uso”, diz. O maior desafio dos cientistas envolvidos com o projeto, acredita o educador físico, será aprimorar a tecnologia para que o rastreamento automático de atletas de outros esportes alcance o mesmo índice obtido com os jogadores de futebol, algo como 90%. “Já temos gente trabalhando nesse aspecto”, revela.
Texto: Manuel Alves Filho
Fonte: Jornal da Unicamp http://www.saudeemmovimento.com.br/reportagem/noticia_frame.asp?cod_noticia=2984
Publicado em: 26/03/2009


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